terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Ápice do Autoconhecimento

O conceito mais forte na cultura do andarilho era o autoconhecimento. Na maioria das culturas é assim, uma pessoa só atinge seu máximo quando se conhece suficientemente. Para a maioria das pessoas o autoconhecimento não precisa ser pleno, basta um pouco, o suficiente para enfrentar os desafios diários.

Mas para o andarilho não poderia ser assim. Ele enfrentara grandes desafios pelo seu povo, lutara em batalhas que garantiram a identidade de sua gente, conhecia toda a sua história. Ele era um exemplo a ser seguido. E ele conhecia-se completamente.

Mas isso não era o fim de uma vida cheia de conquistas, havia muito o que conhecer no mundo. Então o andarilho deixou o castelo do rei, onde por pouco tempo ensinara a vários os segredos de sua técnica de autoconhecimento e assumiu sua natureza mais uma vez: passou a vagar pelo mundo e a aprender o que pudesse.

E o andarilho conheceu muitas coisas e muitas pessoas. Aprendeu muito sobre o mundo e sobre as pessoas. Então, em uma animada conversa numa taverna com novos amigos, percebeu algo em si que não esperava. Era o desconhecido em seus sentimentos novamente. Naquela noite, deitou-se mais cedo.

Deitou-se, mas não dormiu. Não entendia o que acontecia, mas logo veio à sua mente o que ele já deveria ter visualizado há muito tempo: ele havia mudado, constantemente. E preparou suas fórmulas para aceitar a mudança. Era mais uma fase pela qual deveria passar.

Não me preocupo com a cronologia dessa saga quando escrevo, mas devo me preocupar quando publico. Este episódio é anterior à primeira história do andarilho que escrevi aqui. Ainda há cenas a serem narradas até que as histórias se encaixem, e elas aparecerão em breve.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Verdadeira Natureza


"Mas de onde vieram tantas histórias, velho curandeiro?" Perguntou um dia a menina de cabelos cacheados. Sua mãe a repreendeu pelo "velho", mas o andarilho não se importou. Já estava naquela cidade há tanto tempo que apenas ele se chamava de andarilho, quando se observava no presente e no passado.

Durante todos estes anos naquela cidade, o andarilho passou a ser chamado de forasteiro, pois já não mais andava pelos países daquela terra colhendo suas histórias. Agora ele as contava para as pessoas que quisessem escutar. O forasteiro passou a também curar as pessoas daquela região de suas doenças do corpo e da mente. Ensinava-lhes um pouco de sua cultura e elas se sentiam iluminadas.

Mas diante da pergunta da garota de cabelos e olhos escuros, o andarilho se viu confrontado com seu passado. A maioria das histórias que hoje o andarilho conta são baseadas no que ele vê das pessoas e dos viajantes que passam pela cidade com histórias de países distantes. Ele apenas as mistura com os personagens de seu passado, pois sabe que histórias sobre pessoas conhecidas não são atrativas e suas mensagens não entram nas cabeças se não estiverem acompanhadas de mistério.

O andarilho percebeu então que havia sido muito bem recebido naquela cidade, e que praticamente não encontrara resistência à sua presença ali. Entendeu que havia se acomodado, como se aquela cidade fosse suficiente enquanto um mundo inteiro poderia ser explorado. E só assim entendeu porque ele mesmo não deixou de se chamar de andarilho: esta era a sua natureza, e ele sempre quis segui-la.

Olhou para a garota que já insistia na pergunta e respondeu:

― Vem de minhas viagens por esta e por outras terras, e em breve partirei para conhecer novas histórias e contá-las a outras pessoas. ― e ele já não parecia ser tão velho como quando começou a pensar nisso tudo.

― Você voltará para nos contar as novas histórias que conhecer? ― perguntou mais uma vez a garota de pele branca e olhos grandes.

O andarilho sabia que não poderia se comprometer mesmo com a mais inocente das pessoas. "Contarei histórias para seus filhos, e eles não me chamarão de velho", disse e voltou para sua cabana sob a árvore próxima à cidade; precisava se preparar para uma viagem sem destino e sem volta.